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O pai e a construção espiritual dos filhos

O pai e a construção espiritual dos filhos

Dentro de uma família cada um exerce um papel e tem uma importância na formação psicológica e também espiritual das crianças. Mais do que isso, é a divisão das atividades e a somatória desses papéis que trazem a harmonia e solidez estrutural que uma criança precisa para crescer feliz e equilibrada. Não importa se os pais são casados ou divorciados, a participação deles na vida da criança e o interesse que demonstram pelo crescimento e bem-estar de seus filhos e a qualidade do tempo que dedicam a eles valem muito mais que qualquer papel, certidão ou convenção social familiar.

É urgente que abandonemos velhos padrões sociais que tentam definir o que é ou não uma família, para que seja possível incluir todas as formações e laços de amor que se formam em torno de uma criança. Indo mais a fundo, é preciso destacar que nem sempre a pessoa que vai assumir o papel de figura paterna será, necessariamente, um homem ou o pai biológico da criança.

Segundo o psicólogo Frederico Mattos, a figura paterna é um papel que não está restrito nem à biologia, nem ao gênero, e transcende as limitações históricas patriarcais: “Durante muito tempo alguns profissionais entendiam que a figura do pai e da mãe eram essencialmente ligadas ao gênero homem e mulher. Mas isso tem uma limitação histórica, muito em função do machismo cientificamente enraizado do início do século XX. Hoje, já se entende que existem duas funções psicológicas fundamentais no desenvolvimento da personalidade que não são necessariamente desempenhadas por um homem e uma mulher e nem obrigatoriamente por duas pessoas distintas. Convencionou-se chamá-las de funções materna e paterna, que podem ser exercidas por dois homens, duas mulheres, uma avó, invertidamente entre homem e mulher ou por apenas um homem ou uma mulher”.

“It takes a village to raise a child”
Provérbio africano

Entendemos então que a função materna e paterna são posturas tomadas em relação à criação de uma criança, que podem ser exercidas por ambos os gêneros e por qualquer pessoa que faça parte do círculo íntimo da criança. A função materna seria mais ligada à afetividade, sensibilidade, amor e confiança, enquanto a paterna seria a função parental responsável por trazer a criança à uma realidade mais dura e ensinar limites de convivência social. É, conforme entendemos, parte do “trabalho sujo” da educação, aquele papel por vezes desagradável que vai contra os desejos da criança e que temos mais dificuldade em exercer. Então, quando nos referimos à figura paterna, estamos falando da pessoa que vai assumir esse papel. Como o ditado diz, é preciso toda uma vila para criar uma criança. Amor e uma boa criação não tem gênero e nem se restringe aos padrões e burocracias sociais.

O impacto da ausência da figura paterna

A necessidade de nos apoiar em uma autoridade bem definida é muito presente na infância. Pais são o símbolo de autoridade, que proporcionam a sensação de ordem e disciplina. Mas essa figura é muito maior do que a disciplina pode abranger: eles são o convite para o mundo. Eles apresentam oportunidades, complementam a coragem quando necessário, empurram a seguir e despertam o lado mais racional e objetivo para lidar com a vida e suas adversidades.

“O pai é o primeiro outro que a criança vai encontrar fora do ventre de sua mãe”
Jacques Lacan

Quando essa figura é ausente, a criança sente. Cresce sem essa referência e, mais tarde, essa lacuna pode se expressar em forma de problemas financeiros, profissionais, transtorno de ansiedade e dificuldade em estabelecer vínculos afetivos duradouros. Muitas vezes, quando as impressões energéticas e laços vibracionais não são estabelecidos de forma saudável com uma figura paterna, a construção espiritual dessa criança também pode ficar abalada. Falta-lhe o guia, falta-lhe a força, dando lugar a insegurança generalizada que pode impactar a construção espiritual da criança.

A fé que depositamos no universo espiritual, quando é saudável e não fanática, contém um pouco da segurança que encontramos em nossa vida. A insegurança com relação a tudo pode levar ao questionamento espiritual e colocar uma pessoa no caminho da não crença, do mundo caótico onde não há ordem nem justiça. Uma vida vivida desta forma é muito dura. Claro que, aqueles com uma formação psicológica mais sólida, encontram no ateísmo uma liberdade que as crenças não proporcionam. Porém, para a maioria das pessoas, um mundo sem Deus é um mundo difícil, angustiante, vazio e sem esperança.

É aí que a figura paterna entra: na segurança com relação à vida. Na calma mental para encontrar o próprio caminho, na paz de poder questionar e formar as próprias opiniões. Uma pessoa segura está menos propensa a devotar sua vida à dogmas restritivos e a ser submissa a uma fé que escraviza. Assim como está também mais propensa a abandonar explicações metafísicas sobre o universo e, como forma de proteção, se focar no eu e em valores materiais e superficiais de onde é muito difícil extrair felicidade.

A figura paterna é muito importante na construção espiritual e metafísica da vida, pois evita excessos e proporciona equilíbrio.


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Quando a figura paterna é um homem: a missão

Apesar da diversidade que ilumina o mundo e reflete na construção familiar, muitas vezes quem exerce a figura paterna é mesmo o pai. Nesses casos, podemos pensar essa experiência também do ponto de vista do pai, já que os efeitos que essa figura causa nos filhos, nós já falamos.

“Pode-se considerar a paternidade uma missão?
É incontestavelmente uma missão: é ao mesmo tempo um dever muito grande, e que determina, mais do que o homem imagina, sua responsabilidade para o futuro”
Allan Kardec

E que linda missão! Um homem aprende muito sendo pai. Talvez aprenda até mais do que ensina, especialmente quando inserido em uma sociedade patriarcal e machista, que exige muito do homem e também produz grandes estragos. Essa masculinidade tóxica, essa idealização do que é ser homem, esse papel de macho provedor que lhes é atribuído e que eles assumem com gosto, desumanizam o espírito e oprimem a individualidade; felizmente, a paternidade é uma grande oportunidade de quebrar esse ciclo. Quando se tornam pais, eles precisam exercer o amor, a doação, passar por uma transformação mental e espiritual muito grandes e que promovem um crescimento da alma sem precedentes na vida material.

O homem precisa abandonar alguns conceitos impostos pela sociedade se quiser ser um bom pai. Vai ter que aprender a dividir tarefas, a equilibrar o tempo que passa no trabalho e com os amigos em relação à família. Vai ter de lidar com o amor, pois, será inundado por um turbilhão de emoções, por um sentimento tão forte e profundo que ele nunca ousou pensar ser possível. Vai aprender a valorizar as pequenas coisas, abandonar cada vez mais a materialidade e a ideia de controle que a construção do gênero masculino impõe. Vai entender que o mundo não gira em torno dele, ao contrário, ele é que passou a girar em torno do maior tesouro que existe: filhos.

“Sábio é o pai que conhece o seu próprio filho”
William Shakespeare

O homem se torna mais humano quando assume a responsabilidade de criar um filho e se liga ao universo espiritual como nunca. Não é à toa que muitos fogem desse comprometimento, como o diabo da cruz. Se recusam a crescer. Sentem medo, insegurança, e preferem preservar a falsa segurança que a zona de conforto que conhecem proporciona a eles. Quando chegam os filhos, eles entendem seus pais. Entendem a força e a importância da família e que doar é muito mais prazeroso do que ter. Aprendem a dominar a impulsividade, aprendem a falhar. Entendem que podem chorar.

Ser pai é uma benção, um presente que a espiritualidade dá para acelerar o crescimento da consciência e tornar a vida mais colorida. É a chance de amar e se permitir sentir, possibilidade que transforma um qualquer em alguém de verdade. Não em um homem de verdade, mas alguém de verdade. Alguém grande, que age impulsionado por um sentido maior, que aceita falhas e se dispõe a aprender. Que ama. Alguém que entende que aprende mais do que pode ensinar.


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Exercer a paternidade: um ato político

No seguimento da hipótese mais comum onde o pai da criança é quem vai exercer a figura paterna, pode-se dizer que exercer a paternidade seja também um ato político, já que a sociedade ainda não está preparada e evoluída o suficiente para valorizar a participação paterna na criação e estabelecimento de vínculos com os filhos, assim como ocorre com a maternidade. A sociedade infelizmente ainda tenta impor a criação dos filhos às mulheres e cria, com isso, todo um esquema de barreiras estruturais aos homens que decidem que serão pais. Isso significa que eles encontram impedimentos e obstáculos sociais quando decidem participar de forma ativa na criação dos filhos e que precisam lutar para conseguir seu espaço e exercer sua paternidade, em especial socialmente.

Começando pela licença paternidade: no Brasil, os pais recebem como licença 5 dias corridos após o nascimento dos filhos, tempo que não só é cruel com as mães, puérperas e recém paridas em recuperação, como também como eles, que ficam impedidos de criarem laços com seus bebês nos primeiros meses de vida. Além de sobrecarregar a mulher, eles são impedidos de participar e passarem tempo cuidando de seus filhos, tempo que é essencial na criação de vínculos. Obrigados a trabalhar logo após o nascimento, quando chegam em casa estão cansados após um dia de trabalho e a qualidade da atenção que podem oferecer fica prejudicada. Quando muito, conseguem dar um banho ou trocar uma fralda, o que é nada perto da imensidão das delícias que é ter a oportunidade de cuidar de um bebê. Fica abandonado o bebê e, especialmente, a mãe do bebê.

Países mais desenvolvidos tanto economicamente quanto em valores, já perceberam a importância que a participação do pai tem na criação dos filhos, em relação à sociedade como um todo. Há países como a Suécia onde a licença paternidade é de um ano e, pasme, as empresas não param nem a economia quebra. São países que valorizam os humanos e suas necessidades acima do capital e do fetiche pela produtividade a qualquer custo. Vale mais a vida e o bem-estar do que o lucro e a exploração da força de trabalho para enriquecimento de poucos. É possível e já está acontecendo em muitos países. Por coincidência -ou não-, são países com altos índices de IDH.

Outro ponto importante é a acessibilidade. É quase como se um pai que sai com seu filho não tivesse o direito de cuidar deles. Não há trocadores em banheiros masculinos por exemplo. Ou seja, a sociedade não assume que um homem possa estar com seu filho e trocar uma fralda sem a presença da mãe, ou levar sua filha menina ao banheiro. Muitos shoppings e restaurantes já estão buscando corrigir essa falha e disponibilizam trocadores de fraldas fora do banheiro feminino, o que é um grande avanço. Porém, são ainda muito poucos os casos de estabelecimentos que perceberam essa mudança social e ainda é muito difícil para um homem conseguir trocar a fralda de seu filho fora de casa.

“A geração de novos pais é mais participativa, carinhosa e presente. E tomara que continue assim, para o bem das crianças e felicidade dos papais”
Marcos Piangers

Por fim, podemos citar o preconceito enorme que ainda existe quando é o homem que decide ficar em casa e assumir as tarefas relacionadas ao filho e à casa, enquanto a mulher trabalha. Abrir mão de ser o provedor e assumir o trabalho sem fim dos cuidados com a casa e com filhos em tempo integral exige coragem na sociedade, ainda muito patriarcal e machista, que chama de “ajuda” toda e qualquer ação do homem em relação aos filhos e às tarefas domésticas. Ajuda? Eles não fazem mais que sua obrigação quando decidem participar da criação das crianças que ajudaram a trazer ao mundo. Se, para aquele casal funciona melhor que o pai cuide das crianças e a mulher trabalhe, qual o problema?

A sorte é que muitos homens estão descobrindo o quão maravilhoso pode ser esse universo, especialmente no que diz respeito ao retorno de amor que recebem quando comparado às cobranças sem fim e pressões da vida profissional. Poder ficar em casa e acompanhar o crescimento dos filhos é um presente que infelizmente nem todos os homens estão preparados para receber.

Ser um pai ativo é um ato político e que deve, infelizmente, ser conquistado. Não é direito adquirido e exige luta. Quem percebe isso e não abre mão de seus direitos tem muita sorte e está, com certeza, construindo uma família muito mais sólida e saudável, ensinando aos filhos que o amor e os cuidados familiares não têm gênero.

Uma criança precisa muito mais do que uma mãe. Ela merece uma vila inteira!


Saiba mais :

Guta Monteiro Guta Monteiro

Apaixonada por filosofia e literatura, é formada em publicidade e estuda espiritualidade desde criança. Buscadora incansável dos mistérios da vida, adora compartilhar ideias sobre Deus e as forças que movem o universo, para ajudar no seu próprio despertar e no encontro com poder divino que existe em nós. Usa a espiritualidade para crescer e ajudar a crescer aos demais e sonha com um mundo feito de igualdade, fraternidade, liberdade e amor.