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Sexo dos anjos: uma discussão que vale a pena

Sexo dos anjos: uma discussão que vale a pena

“Não adianta discutir o sexo dos anjos” é uma expressão muito famosa e que todo mundo conhece. Mas será que ela é verdadeira? O sexo dos anjos é assim tão nebuloso?

Os anjos são seres espirituais que podem assumir a forma humana. Partindo desse ponto, não é nenhum absurdo pensar sobre a constituição do gênero desses seres. E como os nomes conhecidos são todos masculinos, muitos pensam que eles são seres onde predomina a energia desse gênero.

De fato, o assunto é nebuloso. Muitos usam o texto de Gênesis 6 para apoiar que os anjos tiveram relação sexual com os humanos, originando os gigantes. Ou seja, seriam do sexo masculino. Outros, se baseiam em Gênesis 2:1 e Col 1:16 e 17, que descreve a criação dos céus e de todos os anjos de uma só vez, o que nos leva a entender que não é necessária a multiplicação dos mesmos. Logo, eles não teriam nenhum gênero e seriam assexuados.

Confusão entre gênero e sexo

Parte dessa nebulosidade também se dá em função da confusão que existe entre o que é gênero e o que é sexo, no sentido de ato sexual. Para a igreja e os mais conservadores, é um escândalo dizer que anjos possam fazer sexo. O que é até bem razoável, pois são entidades que não estão encarnadas na matéria e nem nunca estiveram. E o sexo é algo físico, material e carnal. Porém, o fato deles poderem manifestar uma energia feminina ou masculina em nada tem a ver com o ato sexual em si.

O desespero em condenar o sexo é tão grande, que quando se pergunta “anjos têm sexo”, o que muitos entendem é “anjos fazem sexo” e a resposta é logo um grave “não”, deixando de lado a verdadeira essência da pergunta, e principalmente, o fato de que eles podem tomar a forma humana. E, quando fazem isso, escolhem a forma mais conveniente, podendo ser retratados como crianças, mulheres ou homens. Ou seja, canalizam uma forma mais feminina ou masculina, sem perder seu caráter assexuado.


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Mulheres com asas

Se, na realidade da matéria, a questão em torno do gênero é tão polêmica e pautada pelo preconceito e ignorância, imagine dizer aos religiosos, especialmente homens, que podem existir anjas. Mesmo que hipoteticamente, para eles só o fato da questão ser colocada já causa histeria. É inaceitável, e eles vão morrer afirmando que anjo é uma palavra neutra, apesar de ser claramente masculina. Infelizmente, a linguagem foi uma construção muito mais masculina do que feminina, portanto, a expressão dela se construiu inteiramente em torno do gênero masculino. Disso sabemos. O que não é necessariamente um problema, apenas o reflexo da dominância histórica dos homens.

Mas veja a contradição: se a palavra é neutra, ela não pressupõe gênero, certo? Logo, o nome anjo não deveria limitar o gênero dessas entidades divinas. Mas limita. A palavra é neutra até que alguém lance a ideia de que “anjas” possam ser possíveis, ou retire dos anjos essa característica de guerreiro e mensageiro de Deus. A revolta é imediata. Anjo é neutro, mas jamais feminino. Neutro, porém expresso no masculino, com nomes masculinos, características masculinas, algumas vezes chamados de varões, guerreiros do exército divino, mas neutros. Alguns se revoltam com produções artísticas que retratam os anjos com trejeitos “afeminados”. Sim, essa é a palavra utilizada pelos defensores dos anjos neutros guerreiros e fortes. Creditam a esta forma absurda que eles foram retratados a descrença que há nesses guerreiros, sempre lembrando que são neutros, porém, jamais poderiam ser retratados de forma afeminada, com trejeitos ou delicados. Afinal, são guerreiros. Mas neutros e sem gênero, claro.

Fica a dúvida se enfrentamos um mal-entendido linguístico, devido a uma interpretação permeada pelo universo masculino que tratou de excluir o feminino na bíblia, ou se os anjos são mesmos neutros, apesar de “masculinizados” na interpretação humana.

Penso que pouco importa, apesar do comportamento histérico em torno do assunto. Se qualquer entidade com asas se apresentasse para mim, eu cairia de joelhos na hora e a última coisa que pensaria é em identificar o gênero da entidade. Até porque, se somos feitos à imagem e semelhança do mundo divino e aqui existem homens e mulheres, é razoável imaginar que o céu não seja somente povoado por esse “gênero neutro masculinizado”. Certo?

Entretanto, curiosamente existem passagens na bíblia que citam mulheres com asas. A denominação anja obviamente não aparece, mas temos passagens que fazem referência a mulheres com asas. O que seriam elas? É nebuloso, como quase tudo que envolve a bíblia. Quando tratamos ao nível da interpretação humana, fica difícil afirmar o que é o que.

“Foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que ela pudesse voar para o lugar que lhe havia sido preparado no deserto, onde seria sustentada durante um tempo, tempos e meio tempo, fora do alcance da serpente”
Apocalipse 12:14

Temos também Zacarias tendo a visão de “mulheres com asas”:

“De novo ergui os olhos e vi chegarem à minha frente duas mulheres com asas como de cegonha; o vento impeliu suas asas, e elas ergueram o cesto entre o céu e a terra.”
Zacarias 5:9

Outra passagem que gera uma certa polêmica é a fala de Jesus, em Mateus 22:30:

“Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu”
Mateus 22:30

O contexto da citação de Jesus é o questionamento do povo chamado saduceus, que não acreditava na ressurreição. A dúvida endereçada a Jesus dizia respeito ao casamento, pois, segundo Moisés, quando morria alguém sem filhos, o irmão do morto deveria assumir sua mulher. Imagine que haviam 7 irmãos e que, do primeiro até o último, um a um, deixaram a vida, mas antes disso, tomaram a esposa do primeiro falecido com suas. Ou seja, os 7 irmãos casaram com a mesma mulher. Após o último irmão partir, a mulher também morreu. Nesse caso, na ressurreição, de quem seria a mulher?

E a resposta de Jesus foi que todos, inclusive a mulher, seriam como anjos no céu após a ressurreição e que no paraíso não havia nenhum tipo de casamento.

A ressurreição será de nossa carne, ou seja, nossos corpos, e iremos todos para o mesmo lugar, homens e mulheres. Pois que, se ainda não existem anjas, é provável que um dia existam.


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Diferença entre energia e gênero

Pois bem. Para concluir, vemos que existem realmente muitos fatores que interferem no entendimento sobre o sexo dos anjos. Como de costume, projetamos no divino os aspectos humanos, o que prejudica a nossa compreensão e as possibilidades que temos de pensamento. Anjos existem, e concluo que eles possam sim, dependendo da classe e do tipo de trabalho que desempenham, escolher canalizar uma energia feminina ou masculina, até mesmo neutra. Pelo que dizem as escrituras, o reino angélico é bem populoso.

Canalizar uma energia e trabalhar os aspectos positivos dela, não significa atribuir a este ser uma sexualidade. A matéria e toda a metafísica espiritual são duais, equilibradas através dos opostos. Nas filosofias orientais temos o Chi, que se expressa no mundo através do yin e yang. No hinduísmo, Brahma se expressou no universo como Shiva e Shakti. Nas tradições cristãs, a criação de Deus vem através de Adão e Eva. Até na ciência a lógica é a mesma: o campo energético do qual emanam as partículas que formam todas as coisas, se expressa através do próton e do elétron.

A incapacidade de compreender essa dualidade e conseguir valorizar as energias masculinas e femininas como virtudes, como opostos que se completam, é tipicamente humana.


Saiba mais :

Guta Monteiro Guta Monteiro

Apaixonada por filosofia e literatura, é formada em publicidade e estuda espiritualidade desde criança. Buscadora incansável dos mistérios da vida, adora compartilhar ideias sobre Deus e as forças que movem o universo, para ajudar no seu próprio despertar e no encontro com poder divino que existe em nós. Usa a espiritualidade para crescer e ajudar a crescer aos demais e sonha com um mundo feito de igualdade, fraternidade, liberdade e amor.