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O mal da Anedonia -  uma vida sem prazeres

O mal da Anedonia - uma vida sem prazeres

A Anedonia faz referência etimológica a Hedone, deusa grega do prazer. Com o “a” de negação fica explícito o significado da palavra. O termo se refere à incapacidade ou dificuldade de sentir prazer ou se motivar para fazer atividades que antes eram agradáveis e prazerosas. Encontros com amigos, programas de lazer e até mesmo o prazer sexual estão inclusos nesse desinteresse. Pessoas que sofrem com a Anedonia muitas vezes dizem que “não conseguem vibrar com as coisas” ou que “a vida não tem mais sabor”. É comum que ocorra quando o indivíduo está em Depressão (sendo um dos sintomas para diagnóstico), mas também acontece com outras doenças como Esquizofrenia e casos crônicos de transtornos psicológico como fobias e TOC. Neste artigo, falaremos um pouco sobre este mal, a importância de identifica-lo e trata-lo.

Em que consiste a Anedonia?

Referida pela primeira vez em 1896, por Théodule-Armand Ribot – psicólogo francês – a Anedonia atinge cerca de 70% dos pacientes com depressão, de acordo com o psiquiatra e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Luis Scocca. Os números de pessoas com depressão são altíssimos, afetando 322 milhões de pessoas no mundo, o que mostra que muitos sofrem com a Anedonia. Apenas no Brasil, 11,5 milhões (5,8% da população) sofre com a doença. Acredita-se que 18%dos moradores da capital de São Paulo já tiveram depressão, pelos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os tipos principais de Anedonia são a social, que causa desinteresse no contato com a sociedade ou em participar de atividades com outras pessoas, e a física, que causa incapacidade de sentir prazer ao toque, contato íntimo ou até em comer, por exemplo.

Os sintomas mais comuns de pessoas que sofrem com este mal são: dificuldade de se relacionar com outros; sentimentos negativos sobre si mesmos a sobre os outros; dificuldade para falar com as pessoas e demonstrar afeto; dificuldade para se adaptar a situações sociais; tendência em demonstrar emoções falsas pela perda de apetite sexual.

“Todo desiquilíbrio psicológico é perda de contato com a alma”
Luiz Gasparetto

Qual a diferença entre Anedonia e apatia?

É importante saber a diferença entre estes conceitos, pois muitas vezes confundimos Anedonia com apatia. As duas são frequentes em transtornos mentais e nem sempre estão presentes de forma simultânea. A Anedonia está mais próxima de uma alteração de emoções do que perda de humor e sentimento. A pessoa não consegue sentir prazer (a reação emocional mais intensa a certas atividades que causam satisfação mental), mas consegue manter seu humor e sentimentos ativos (ainda que na forma de um humor depressivo, por exemplo). Enquanto a apatia consiste na incapacidade de sentir afeto, o que significa que estão comprometidos do humor aos sentimentos e as emoções, como se tivessem uma ausência completa de experiência afetiva, que também podemos chamar de “afeto neutro/indiferente”.

Na psiquiatria, onde se trabalha com a elaboração de diagnósticos, o erro de diferenciação entre os dois termos pode resultar em erros de conduta.

A Anedonia no cérebro

Sentir prazer é uma tarefa mais complicada do que imaginamos, ao menos a nível cerebral. Envolve diversas estruturas cerebrais e suas interconexões, que são muito numerosas. Para gerar prazer, são necessários três passos: a excitação ou expectativa, a avaliação (quando se identifica se determinada atividade ou situação está sendo prazerosa ou não) e a expressão de emoção desencadeada (através de alterações comportamentais ou neurovegetativas). Tudo isso acontece a partir da atuação do sistema de recompensa cerebral, que faz uma associação de situações consideras positivas com o sentimento de prazer e motiva a pessoa a repeti-las.

Dois grandes conjuntos de estruturas são envolvidos neste processo: o sistema dorsal (que envolve hipocampo, regiões dorsais do giro cingulado e córtex pré-frontal) e o sistema ventral (formado pela amígdala, núcleo accumbens, ínsula, porção ventral do estriado, regiões ventrais do giro cingulado e córtex pré-frontal). O primeiro é responsabilizado pelo controle consciente do afeto, a partir de funções executivas como atenção seletiva e planejamento. Já o segundo, desempenha o papel de identificar o sentido afetivo de cada estímulo externo, proporcionando respostas emocionais correspondentes, além de controlar as funções autonômicas (frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão, sudorese, etc.)

Em nível molecular, diversos neurotransmissores estão envolvidos como serotonina, glutamato, acetilcolina e colecistoquinina, mas o que tem mais destaque é a dopamina. Ela se envolve na maior parte dos processos citados acima e parece se relacionar especialmente com a motivação, em busca de recompensa.

Uma das estruturas mais importantes envolvidas em pesquisas sobre o assunto é o estriado ventral, especialmente porque reflete a atividade do núcleo accumbens. As pesquisas que analisam imagens mostram uma queda considerável em sua atividade em pacientes que possuem Anedonia quando são comparados com pessoas saudáveis. Diferente do que se esperava, a atividade do córtex pré-frontal ventro-medial (CPFVM) estava maior quando pacientes com Anedonia eram expostos a estímulos alegres e menor com estímulos tristes (de maneira diferente do que acontecia com indivíduos saudáveis). Embora pareça contraditório, esse excesso de atividade pode ser secundário. Acredita-se que o CPFVM esteja fazendo um esforço maior para processar os estímulos positivos externos em uma tentativa frustrada de melhorar o humor e gerar emoções positivas.

Acredita-se que esses pacientes possuam alterações funcionais nessas regiões do cérebro e tenham assim, uma atividade dopaminérgica menor nas mesmas vias. Porém, essa é apenas uma pequena parte do processo complexo que gera o afeto, sendo imprescindíveis novos estudos para entender melhor um contexto amplo dessa neuropsicopatologia.


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Por que entender sobre a Anedonia?

Como se trata de um sintoma, mais do que um transtorno em si, o tratamento da Anedonia envolve cuidar da condição subjacente, sendo mais importante um valor diagnóstico do que terapêutico. É essencial entender que um paciente com este sintoma não necessariamente é depressivo. Diversas doenças orgânicas, por insuficiência que causam, ou diversos transtornos mentais podem gerar a Anedonia em pacientes. Assim como não se deve esperar pela Anedonia para identificar um quadro depressivo. Como dissemos anteriormente, é necessário conhece-la para diferenciar de sintomas parecidos como a apatia, mas que possuem significados diferentes na fisiopatologia de doenças.

Acima de tudo, é uma condição que merece atenção por conta da grande redução de qualidade de vida que causa, proporcionando o surgimento de quadros depressivos, quando os mesmos ainda não apareceram, e aumento do risco de suicídios em pacientes psiquiátricos. Ter conhecimento sobre a psicopatologia e neurofisiologia por trás deste quadro permite uma compreensão melhor da saúde mental e distúrbios, assim como tratamentos adequados para pacientes que possuem Anedonia.


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Como pode ser feito o tratamento

A Anedonia possui cura, porém o tratamento pode ser muito difícil. Na maioria dos casos, consiste em tratar a doença na qual está sua origem, como depressão ou outra patologia psiquiátrica. Primeiramente, tenta-se a psicoterapia com um terapeuta, que vai avaliar o estado psicológico do paciente e se é necessário encaminhá-lo para a psiquiatria. Caso a pessoa se trate com psiquiatra, poderão ser prescritos medicamentos como antidepressivos ou remédios específicos para o problema psiquiátrico que o paciente possui.

É necessário fazer acompanhamento médico regularmente para identificar efeitos colaterais que podem ser causados pelos medicamentos e ajustar a dose caso necessário, obtendo assim melhores resultados. Outras opções de tratamento para Anedonia são estimulação magnética transcraniana, terapia eletroconvulsiva e estimulação do nervo vagal.

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