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Noite escura da alma: um caminho de evolução

Noite escura da alma: um caminho de evolução

Todas as pessoas que estão buscando a luz, o desenvolvimento pessoal, vão passar pela fase chamada da Noite Escura da Alma. Já ouviu falar?

É um período de desesperança, angústia e escuridão que pode assustar quem busca a espiritualidade. Mas ela é extremamente comum, pois faz parte do despertar a iluminação das nossas trevas interiores, nos colocando frente a frente com nossa própria escuridão. O despertar é como arrumar um armário bagunçado: há muito para se jogar fora, ressignificar, transformar e organizar. E a quantidade de informações que recebemos é como se pegássemos todas as roupas, toda a bagunça do armário, e jogássemos no chão de uma só vez para começar a arrumação. E, é claro, a primeira impressão é de que a bagunça aumentou e, em alguns casos, saiu do controle. Mas faz parte do processo de organização alguma bagunça, certo?

“Eu sou uma floresta e uma noite de árvores escuras: mas aquele que não tem medo da minha escuridão encontrará bancos cheios de rosas sob meus ciprestes.”
Friedrich Nietzsche

Acordar a mente gera um bem-estar incrível, mas o processo pode ser doloroso. O segredo está em perceber isso e usar os períodos mais duros a nosso favor, sem permitir que eles nos afastem dos objetivos. Aliás, é durante as adversidades e quando nos sentimos frágeis e desamparados, que mais crescemos enquanto espírito. As maiores lições chegam travestidas de dor. Manter a fé e seguir caminhando são os segredos para vencer a Noite Escura da Alma mais rapidamente e retirar o máximo dessa experiência.

Tradição Católica: o poema

Esse momento pelo qual passam os buscadores, chamado Noite Escura da Alma, foi originalmente descrito em um poema escrito no século XVI pelo poeta espanhol e místico cristão São João da Cruz. Frade carmelita, João da Cruz é considerado juntamente com Santa Teresa de Ávila o fundador da ordem das Carmelitas Descalças. Foi canonizado em 1726 por Bento XIII e é um dos Doutores da Igreja Católica Apostólica Romana.

O poema narra a jornada da alma desde a sua morada carnal até a união com Deus, onde a jornada, ou seja, o espaço de tempo entre o início de tudo e o retorno ao mundo espiritual seria a Noite Escura, onde a escuridão seriam as dificuldades do espírito em abdicar das seduções da matéria para poder se unir ao divino.

A obra trata da purificação dos sentidos, processo onde passamos a utilizar nossa sensibilidade com foco no mundo espiritual, abandonando cada vez mais a materialidade. A Noite Escura da Alma também descreve os dez níveis na progressão em direção ao amor místico, tal como descrito por São Tomás de Aquino e, em parte, por Aristóteles. Assim, o poema apresenta os passos para fazer da Noite Escura da Alma uma aliada no crescimento espiritual: purificar os sentidos, evoluir o espírito e viver uma vida de amor.

Embora no poema o sentido dado à Noite Escura da Alma esteja mais relacionado à jornada da alma em si, o termo ficou conhecido no catolicismo e fora dele como a crise que espírito enfrenta para superar a materialidade. Abalo da fé, dúvidas, sensação de vazio, abandono, incompreensão e desconexão são os indícios de que sua alma passa por esse período.

“Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo”
Paulo (2Co 4, 7-10)

A Noite Escura da Alma foi a “enfermidade” que levou Davi a encharcar o travesseiro com lágrimas e que valeu a Jeremias o apelido de “profeta chorão”. Santa Teresa de Lisieux, carmelita francesa do século XIX, sofreu forte abalo causado por dúvidas sobre a vida após a morte. São Paulo da Cruz também sofreu da escuridão espiritual por longos 45 anos e até mesmo Madre Teresa de Calcutá teria sido “vítima” dessa escuridão emocional. Padre Frei Franciscano Bento Groeschel, amigo de Madre Teresa durante grande parte de sua vida, afirma que “a escuridão a deixou” no final da vida. É possível que até mesmo Jesus Cristo tenha experimentado a angústia desse período, ao proferir a frase “Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.


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A benção da ignorância

Essa frase é muito repetida, porém, nem sempre nos damos conta do enorme sentido que ela carrega. E, para compreendermos o que é a Noite Escura, ela é uma referência perfeita.
A ignorância nos poupa dor. Isso é um fato. Quando não sabemos a respeito de algo, ele não pode ter nenhum impacto sobre nosso emocional. O mesmo ocorre quando levamos a vida de forma mais desprendida dos preceitos divinos, na materialidade, com a alma adormecida. Nos satisfazemos, a princípio, com os frutos da vida material. O dinheiro, a carreira, viagens, a casa nova, momentos de lazer ou uma nova relação afetiva podem proporcionar o sentimento de felicidade, alegria e pertencimento. Não questionamos, apenas desejamos e seguimos na estrada guiados pelo nosso ego, conformados com a alegria que ele oferece quando é contemplado. Sentimos mesmo que a vida se dá na matéria e que tudo está correndo bem. Claro, correndo bem para nós, já que normalmente somos uma ilha de felicidade em meio a ruína e o caos do mundo, o que significa que estamos focados em nós mesmos.

Porém, quando buscamos pela evolução, o cenário se altera de forma radical. Nossos olhos passam a enxergar além de ver, e se desnuda em nossa frente o mundo como ele é. Passamos a compreender a justiça e o mal do mundo de forma totalmente diferente, e, quanto mais compreendemos, mais confusos ficamos. Perdemos aquela sensação de pertencimento, conformidade e aceitação para ingressar no mundo dos questionamentos e até mesmo da revolta, outra cilada do despertar. Importa o outro, além de nós. Percebemos que não existe controle, que a felicidade material é passageira e se torna difícil compreender a ação de Deus e sua justiça. Quanto mais estudamos, percebemos que nada sabemos e isso é assustador. Quanto mais buscamos a fé, podemos dela nos distanciar.

“Meu desejo de viver é tão intenso, e embora meu coração esteja quebrado, corações são feitos para serem quebrados: é por isso que Deus envia tristeza para o mundo… Para mim, o sofrimento parece agora uma coisa sacramental, que santifica aqueles a quem toca”
Oscar Wilde

Isso é a Noite Escura da Alma. Quando o despertar chega e os véus do mundo são retirados, ficamos perdidos, confusos e nossas emoções ficam abaladas. É como se algo nos fosse retirado, pois somos expulsos da zona de conforto e da paz que a visão não crítica do mundo oferece. A fé ainda está ali, mas não está sozinha; agora as dúvidas, questionamentos e anseio por respostas passam a compor a espiritualidade em processo de desenvolvimento. E, dependendo da intensidade das emoções e das experiências que vivenciamos na encarnação, essa Noite Escura pode levar anos até que a pessoa consiga superá-la.


Como enfrentar a Noite Escura da Alma

Como vimos, a tensão e a ansiedade são necessárias no processo de amadurecimento espiritual e psicológico. Em outras palavras, é a fricção interior que faz com que o espelho de nossas almas seja polido o suficiente para que possamos perceber nossa natureza, nossa verdadeira origem.

Por isso, não devemos temer essa fase, pelo contrário. Devemos aprender com ela, agradecer por estarmos avançando na jornada evolutiva, agora capazes de perceber o mundo para além da materialidade.

É o momento de deixar fluir as emoções e também a razão. A cabeça, ávida por compreensão, vai tentar atribuir sentido em tudo quanto for possível, o que vai gerar frustração. Nem tudo pode ser explicado à luz da razão, e essa é a primeira lição que a Noite Escura da Alma nos ensina: há coisas que não farão sentido, mesmo para a alma mais espiritualizada.

“Do sofrimento emergiram as Almas mais fortes; os personagens mais notáveis são marcados com cicatrizes”
Khalil Gibran

Tentar levar a vida segundo preceitos divinos não é fácil. Agradecer, perdoar e aceitar são virtudes pouco incentivadas pela vida em sociedade; estão muito presentes nos discursos e narrativas, porém, não as encontramos nas atitudes humanas. O mundo parece premiar os injustos e espertos, e isso aprofunda a Noite Escura que a alma atravessa. O segredo é não desanimar e procurar não estabelecer padrões, compreendendo que a justiça divina transcende a nossa compreensão.

Nos momentos mais difíceis confiar na vida e no mundo espiritual é a tábua de salvação para qualquer escuridão. Aceite os sentimentos, mesmo aqueles mais densos, pois evitá-los não gera crescimento. Já integrá-los como um produto natural da vida na matéria, sim. O que não tem remédio, remediado está. Continue sempre em frente, mesmo que as emoções pareçam sufocar a alma. Paciência é também uma grande lição que a Noite Escura da Alma oferece. Não há mapa, receita de bolo ou manual, pois cada um vive a sua verdade e atrai para si as experiências na medida exata de suas necessidades. O sofrimento é também a chave que nos liberta da prisão e as cicatrizes que trazemos na alma são o lembrete de que somos fortes, além de representarem a memória da nossa jornada.


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7 Sinais que sua alma está atravessando a escuridão:

  • 1

    Tristeza

    Uma tristeza invade a sua vida em relação à própria existência. Não devemos confundir com depressão, que é mais autocentrada, ou seja, o sofrimento que decorre da depressão está em torno unicamente do ser e suas experiências. Já a tristeza que acomete os buscadores na Noite Escura da Alma é mais generalizada, e leva em consideração o sentido da vida e o estado da humanidade, se derramando sobre aquilo que acontece com o outro.

  • 2

    Indignidade

    Olhando para o mundo e para as experiências dos grandes mestres, nos sentimos indignos das graças que recebemos. Com a guerra na Síria, como posso eu rezar para conseguir um novo emprego? Dar a outra face para quem nos bate, assim como Jesus, é quase impossível, e isso gera uma frustração que nos faz sentir indignos do reino espiritual.

  • 3

    Condenado ao sofrimento

    Ao mesmo tempo que a indignidade aparece, emerge também a sensação de solidão, incompreensão e a impressão de que estamos condenados ao sofrimento. Não nos sentimos conectados nem com o mundo, nem com Deus.

  • 4

    Impotência

    O mundo em ruínas, sendo destruído, e nada podemos fazer. Ao contrário, para sobreviver em sociedade, somos obrigados a compactuar com hábitos e toda uma cultura e valores que ameaçam a possibilidade da continuidade da vida no planeta. Sentimos que somos tão pequenos que nada que possamos fazer terá algum efeito, não só sobre a nossa própria vida como também sobre o mundo.

  • 5

    Paralisação

    A impotência nos desanima e nos paralisa. Já que nada tem sentido, porque devemos agir? Porque devemos sair da zona de conforto e alçar novos voos? Acabamos paralisados, estagnados, o que é um perigo para o desenvolvimento espiritual. Nada é pior do que energia parada, já que o mundo é pautado pelo movimento.

  • 6

    Interesse

    Impotentes e paralisados, ficamos, ao longo do tempo, desinteressados. O que antes nos causava alegria, ou perdeu o sentido com a chegada do prisma espiritual ou mesmo que ainda tenha significado, não nos impacta mais da mesma forma. Fica mais difícil encontrar estímulos, estipular metas e desafios que provocam o movimento e evolução em nosso caminhar.

  • 7

    Saudade

    Um saudosismo diferente toma conta das memórias. E não é uma saudade de algo que passou, mas sim de algo que nunca foi vivido, quase que uma saudade de não se sabe o quê. É o cansaço e descrença na vida que nos faz querer retornar ao nosso lar espiritual.

“O conhecimento torna a alma jovem e diminui a amargura da velhice. Colhe, pois, a sabedoria. Armazena suavidade para o amanhã”
Leonardo da Vinci


Saiba mais :

Guta Monteiro Guta Monteiro

Apaixonada por filosofia e literatura, é formada em publicidade e estuda espiritualidade desde criança. Buscadora incansável dos mistérios da vida, adora compartilhar ideias sobre Deus e as forças que movem o universo, para ajudar no seu próprio despertar e no encontro com poder divino que existe em nós. Usa a espiritualidade para crescer e ajudar a crescer aos demais e sonha com um mundo feito de igualdade, fraternidade, liberdade e amor.