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Giordano Bruno: magia, astronomia e projeção astral

Giordano Bruno: magia, astronomia e projeção astral

Em tempos em que não havia telescópios e a Terra era o centro do Universo, havia um homem que ousou pensar além de sua época. Um cosmos imenso, habitado e que tirava o protagonismo da Terra era a proposta de Giordano Bruno, que, obviamente, teve a voz silenciada pela fogueira da Inquisição.

O Deus adorado por Bruno era infinito, assim como o Universo que ele imaginava. A criação divina não poderia ser limitada, pois deveria refletir a força infinita do seu criador. Infelizmente, a liberdade de pensamento da época reprimiu duramente as ideias desse gênio, considerando suas teorias uma afronta às escrituras. Essa é uma história sobre astronomia, pensamento e repressão religiosa, mas também é uma trajetória de magia e experiências fora do corpo. Sim, Giordano Bruno saia do corpo e essas experiências eram a fonte do pensamento desse grande filósofo.

A trajetória de Bruno

Padre, filósofo, místico, poeta, e autor de peças de teatro, nascido Filippo Bruno em 1548 em Nápoles, Bruno pagaria com a vida pela ousadia de ter desafiado a Igreja e discordado das ideias então vigentes, entre as quais a de que a Terra era o centro do universo.

Com apenas 15 anos, ingressou na Ordem Dominicana, onde estudou Aristóteles, Tomás de Aquino e outros pensadores para obter sua formação em Teologia. Não demorou muito para que seu pensamento avançado fosse considerado heresia: ainda noviço, ele atraiu atenção pela originalidade de seus pontos de vista e por suas exposições críticas das doutrinas teológicas então aceitas. Bruno então abandonou o hábito e em 1579 deixou a Itália e iniciou sua peregrinação. Passou por Gênova, França, Suíça, Inglaterra, Alemanha e República Tcheca, período em que conseguiu publicar vários de seus escritos. Até que, em 1590, uma traição o levou diretamente as garras da Inquisição, que a anos o procurava por suas ideias subversivas. O julgamento de Bruno durou oito anos, durante os quais ele foi preso, por último, na Torre de Nona. Giovanni Mocenigo era o nome do traidor, que se aproximou de Bruno e o convenceu a retornar a Veneza, a pretexto de lhe ensinar mnemotécnica, arte que Bruno era perito. Como Veneza tinha a fama de proteger foragidos, o filósofo sentiu-se encorajado a regressar.

“As cinzas de Giordano Bruno se espalharam pela poeira dos séculos, mas seu espírito original, dedicado e inquiridor permanece vivo, pulsante em nossa memória como exemplo de renovação e renascimento”
Caciano Camilo Compostela

Acontece que Mocenigo queria usar as artes da memória com objetivos comerciais e obtenção de poder, o que feria a ética de Bruno. Então, ele decide não passar nenhum tipo de conhecimento a Mocenigo, o que se mostrou ser o início do fim dessa mente brilhante. Mocenigo, irritado, resolve perguntar a seu confessor se devia denunciar Bruno à Inquisição, e o sacerdote o aconselhou a reunir mais provas. Porém, Bruno anunciou seu desejo de regressar a Frankfurt, o que levou Mocenigo a denunciá-lo ao Santo Ofício. Mocenigo trancou-o num quarto e chamou os agentes da Inquisição, que o levaram preso imediatamente. No último interrogatório pela Inquisição do Santo Ofício, Bruno não abjurou e, no dia 8 de fevereiro de 1600, foi condenado à morte na fogueira. Obrigado a ouvir a sentença ajoelhado, Giordano Bruno teria respondido com um desafio: “Maiori forsan cum timore sententiam in me fertis quam ego accipiam”, que significa “Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la”. A execução de sua sentença ocorreu no dia 17 de fevereiro de 1600 e Bruno foi queimado vivo.

Séculos depois, o papa João Paulo II fez publicamente um pedido de perdão em nome da Igreja, pelas “faltas que os cristãos cometeram contra o evangelho e os métodos não evangélicos a que os cristãos recorreram”, contexto no qual podemos inserir Bruno e tantos outros. Curiosamente, em pleno século XXI há quem conteste esse pedido de perdão, não reconheça qualquer pecado praticado pela fé católica e ainda condene Giordano Bruno por suas ideias. Acabaram as fogueiras, mas o pensamento inquisidor ainda vive no coração de muitos fiéis.


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A revolução de Giordano Bruno

O pensamento de Bruno era denso, complexo e abrangente. Mas seu maior pecado foi supor a existência de outros planetas e possivelmente outras civilizações, o que gerou para a Igreja o problema de haver outros Cristos, sistemas de pensamento que não o católico e especialmente a ideia de que a humanidade não era o ápice da criação divina. Também era inaceitável a ideia de que o Cosmos não havia sido criado para nós.

Bruno conhecia e apoiava a teoria heliocêntrica de Copérnico, que dizia ser o Sol o centro do universo. Mas foi além. Ele pregava que o Universo era infinito, sem centro e repleto de mundos habitados, conforme trecho de sua obra Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos: “que haja nesse espaço inúmeros corpos como nossa Terra e outras terras, nosso Sol e outros sóis, todos os quais executam revoluções nesse espaço infinito”. Com essas afirmações, Bruno assinou sua sentença de morte.

Além disso, ele também afirmava, por exemplo, que, além de Saturno (o planeta mais distante do Sol conhecido até então), havia outros planetas que giravam ao redor da estrela. Isso foi confirmado com a descoberta dos planetas Urano, em 1781, por William Herschel, Netuno, em 1846, por Johann Galle, e Plutão, em 1930, por Percival Lowell. O incômodo que Bruno causava a Igreja era mais político do que teológico. Suas ideias tiveram importância política, pois na luta entre a Igreja conservadora e a burguesia revolucionária ele optou pela revolução. Ele defendia que o Deus definido pelo Cristianismo era limitado e, acima de tudo, não incorporava a ideia da infinitude dos mundos. Ele sugeriu abandonar as Sagradas Escrituras e reescrever Deus levando em conta a existência de outros mundos e outras formas de vida pensante, um ato de blasfêmia do mais alto grau na escala de heresia.


Misticismo e projeção astral

Obviamente, o termo projeção astral é uma terminologia moderna, que não existia na época. Porém, pelos registros deixados por Bruno, não restam dúvidas que ele foi retirado do corpo e levado a uma projeção astral, onde pode, entre outras coisas, voar pelo espaço e comprovar com seus próprios olhos as suas ideias.

Aos 30 anos, Giordano Bruno teve a visão que selou seu destino. Essa visão foi chamada de sonho, mas os detalhes mostram claramente que a consciência de Bruno deixou o corpo e saiu pelo espaço, o que é bastante comum nas projeções astrais. Aliás, essa é uma das primeiras coisas que um projetor iniciante deseja fazer: ver a Terra da perspectiva do espaço. Bruno “acordou” dentro de uma tigela limitante de estrelas, o cosmos de época de Bruno. Ele teve uma sensação momentânea de medo, como se a base de tudo sumisse de seus pés. Porém, movido pela coragem, Bruno se deixou levar pela experiência. Essas são palavras do próprio Bruno: “abri asas confiantes no espaço e elevei-me em direção ao infinito deixando pra trás tudo que os outros se esforçavam para ver ao longe. Aqui não há em cima nem embaixo, não há beira nem centro, eu vi que o Sol era só outra estrela e que as estrelas eram outros sóis. Cada um deles acompanhados por outras Terras como a nossa. A revelação dessa imensidão foi como se apaixonar”.

“Giordano Bruno mostrou que a luz de uma fogueira nunca ultrapassará a luz do conhecimento”
Mário Pereira Gomes

Pobre Bruno. A experiência que ele teve o levou a pensar que outras pessoas que também adoravam a Deus iriam partilhar do seu evangelho do infinito, uma visão maior e mais gloriosa da criação. Esse foi o início de seu declínio, pois foi excomungado de quase todos os países por onde passou. O origem de suas afirmações também foi o motivo de críticas com relação ao seu método, dividindo as opiniões. Místico ou cientista? Como a ciência rejeita qualquer ideia que extrapole o método, muitos consideram Bruno apenas um místico teimoso.

“Tantos são os significados de magia quanto são os magos. Os filósofos chamam mago ao sábio com capacidade de construir”
Giordano Bruno

Giordano Bruno é filósofo para aqueles que encontram uma raiz mística na ciência, não para aqueles que se envaidecem com os seus frágeis e quebradiços conhecimentos.


Saiba mais :

Guta Monteiro Guta Monteiro

Apaixonada por filosofia e literatura, é formada em publicidade e estuda espiritualidade desde criança. Buscadora incansável dos mistérios da vida, adora compartilhar ideias sobre Deus e as forças que movem o universo, para ajudar no seu próprio despertar e no encontro com poder divino que existe em nós. Usa a espiritualidade para crescer e ajudar a crescer aos demais e sonha com um mundo feito de igualdade, fraternidade, liberdade e amor.