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As crianças podem entender a morte?

As crianças podem entender a morte?

Quando morre alguém, vem aquele dilema: o que dizer para as crianças? Qual a melhor forma de tratar esse tema perante esses serzinho de luz, de olhos atentos? Será que elas têm capacidade de entender o que significa a morte?

É realmente um assunto delicado. Difícil encontrar um equilíbrio entre mentir, pintar um mundo falso cor-de-rosa e ser sincero. A dureza do tema nos faz sentir medo de introduzir um assunto que pode, dependendo da forma como for transmitido, gerar um trauma.

“Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte”
Arthur Schopenhauer

Devemos ter em mente que, dependendo da idade, o processamento da informação vai se dar em níveis e intensidades diferentes. Ou seja, as formas que as crianças têm para lidar com a perda varia de acordo com a idade. E também é importante lembrar que, para criar crianças espiritualizadas, devemos tratar de todos os temas que envolvem a vida sem omitir a verdade. Ignorar a curiosidade ou os sentimentos de uma criança é um erro grave.

A ideia de finitude e o “nunca mais”

Falar com a criança na linguagem que ela entende é fundamental. A morte é um fenômeno da vida, que não está restrito ao mundo adulto e pode impactar as crianças. Mães, pais, avós, irmãozinhos… todos podem, de uma hora para outra, morrer. E se a morte é um aspecto da vida, ela deve ser compartilhada com a criança com naturalidade. Devemos, porém, adaptar essa mensagem à idade e linguagem da criança, pois cedo ou tarde ela vai entrar em contato com a finitude da vida.

A ideia de morte para os adultos é diferente da ideia de morte que uma criança é capaz de racionalizar. A idade infantil não permite à criança ter a noção real de passado presente e futuro, então, diferente de nós, ela não percebe o que o “nunca mais” significa. Para o mundo adulto, a morte é esse “nunca mais”, mas para a criança, não. A criança só percebe a ausência e de forma momentânea. Falar sobre a morte com os pequenos é muito mais saudável quando feita de forma natural e fazendo referência à experiências da vida: as flores morrem, os animaizinhos uma hora partem, o vovô ou vovó a mesma coisa. Tudo que tem vida, um dia acaba. E isso não é necessariamente ruim, ao contrário! Faz parte da dinâmica da vida.

“Ah!, o eterno é o sempre. Não tem nós de nascimentos ou embaraços de mortes. E o pensamento, este é terreno demais para decifrar intenso mistério.”
Bartolomeu Campos de Queirós

A criança pode ficar muito impressionada com a falta, no sentido de cuidado. Quando falamos em morte de alguém mais distante e fora do círculo familiar, essa ausência não tem grande impacto sobre a criança. Quando ela percebe a morte de alguém mais próximo, o que pode acontecer é que ela sinta medo e perceba que, a qualquer momento, pode perder um dos pais. Uma dica valiosa é explicar para a criança que a vida pode acabar, sim, mas que ela nunca estará sozinha. Se não houver a mamãe, tem o papai, a vovó, vovô, ou quem quer que vá, numa fatalidade, exercer o papel de cuidador. É importante mostrar a criança que não há o que temer.

Somente após os 8 ou 9 anos de idade é que a criança vai começar a entender a gravidade da morte e o peso do “nunca mais”. Por isso, é mais fácil enfrentar os desafios de uma perda quando a criança envolvida tem menos de 7 anos.


Clique Aqui: A vida, a morte e o encontro com a família


Quando acontece a morte de um dos pais

Quando a morte é de um progenitor, o assunto fica complicado. Especialmente quando é a mãe quem parte, a criança pode sofrer muito com essa ausência e não ter ainda mecanismos cognitivos para conseguir lidar com a perda, com essa dor. Ela simplesmente “quer” e não entende porque não é atendida.

Para crianças de aproximadamente 3 até os 4 anos, a percepção da morte é momentânea. Ela sente a falta, percebe a ausência em momentos muito específicos e pode chorar, chamando pela mãe ou pelo pai que morreu e, após alguns minutos, já estar brincando ou distraído com algo de sua rotina. Acolher a dor sem mentir é a melhor postura nessas situações. Como apoio e já que a percepção é momentânea, explica-se o que aconteceu e, após isso, uma ótima tática é distrair a criança, direcionando a atenção para alguma outra coisa: um brinquedo, um desenho, filme, música.

Não é muito recomendado, mas fazer alusão ao céu também pode ajudar a criança a lidar com a ansiedade, já que ela consegue posicionar e reconhecer onde está o familiar; damos uma direção, uma explicação: “Mamãe ficou doente e foi morar no céu, por isso não está mais aqui, não está presente agora”. Isso também vai ajudar a criança a começar a construir alguma espiritualidade e a ideia de que o corpo físico não é tudo que existe, e que todos vão para algum lugar quando “desaparecem”. Essa sementinha também vai gerar frutos e ajudar a introduzir a espiritualidade para a criança, que vai certamente ajudá-la a entender melhor não só a morte, mas também a vida.

Outro ponto importante é responder a toda e qualquer pergunta da criança, independente da idade e de quantas vezes ela apresente o questionamento. Como elas não lidam bem com a ideia de tempo, é comum que elas tornem a perguntar “quando fulano vai voltar”, mesmo que você já tenha explicado o que aconteceu. Conforme a criança for apresentando interesse, responda as perguntas sem omissões. Seja sincero e respeite a curiosidade e a capacidade da criança de entender o que está sendo dito.

Podemos e devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para apoiar a criança durante o luto e ajudar a construir os caminhos emocionais e espirituais que vão suportá-la no futuro.


Clique Aqui: O que as religiões dizem sobre a morte


E sobre os rituais? Devemos permitir que a criança participe?

Depende. Se para nós, ver a pessoa que amamos dentro de um caixão pode nos abalar, imagine o quão assustador pode ser para a criança, especialmente as menores. Além disso, a reação emotiva das outras pessoas pode ter um impacto muito negativo.

Segundo psicólogos, levar ou não a criança ao enterro vai depender da participação que a criança teve naquela morte, o grau de parentesco com aquele que partiu, a maturidade e idade que ela tem, além da própria vontade da criança em participar. Dependendo da idade, pode-se explicar o que é um enterro, o que vai acontecer ali, como estará o ânimo dos familiares e deixar que ela manifeste – ou não- a vontade de participar. Em casos de morte muito traumáticas, podemos sim poupar a criança desse momento e evitar que ela guarde na mente aquela última imagem do familiar. Para crianças muito pequenas, a recomendação é que ela não participe de enterros, pois, pode ser assustador presenciar o corpo sem vida sendo velado e enterrado.

Já os rituais como missas ou cultos são mais fáceis de explicar e a presença da criança é positiva, pois ela se sente incluída. No caso de uma família católica, dizer que missa é uma homenagem para quem partiu é uma forma de tratar a coisa de maneira natural, leve e inclusiva.

Outro fator importante é não esconder as emoções da criança. Se você está triste com a morte, não esconda seus sentimentos. A criança percebe quando fazemos isso e ficará com mais dúvidas ainda sobre o que está acontecendo.

A verdade é que, como mencionado anteriormente, a morte é parte da vida e esconder isso da criança não faz bem a ela. Se essa fatalidade aconteceu e afeta a criança, devemos explicar o que significa morrer e aproveitar o momento para ajudar a construir a espiritualidade daquela criança, dando as bases necessárias para que ela manifeste sua curiosidade e faça as perguntas que sentir vontade de fazer. Não minta, jamais. Inventar que a pessoa foi viajar ou mudou de cidade, por exemplo, pode penalizar aquela criança e prejudicar o entendimento futuro que ela terá sobre a vida como um todo. Ela pode, por exemplo, associar a ideia de morte com viagens e sempre que alguém for viajar, ou ela mesma, ficar aterrorizada e com medo de que ela vá morrer.

“A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.”
Epicuro

Nós mesmos devemos lidar melhor com a morte. Apesar da dor, devemos sempre nos lembrar que a morte não é o fim, mas uma transformação. Quem parte está somente seguindo sua jornada evolutiva e a vida no astral é um fato. Certamente, iremos todos nos encontrar em outras circunstâncias e a vida na matéria é uma grande viagem.


Saiba mais :

Guta Monteiro Guta Monteiro

Apaixonada por filosofia e literatura, é formada em publicidade e estuda espiritualidade desde criança. Buscadora incansável dos mistérios da vida, adora compartilhar ideias sobre Deus e as forças que movem o universo, para ajudar no seu próprio despertar e no encontro com poder divino que existe em nós. Usa a espiritualidade para crescer e ajudar a crescer aos demais e sonha com um mundo feito de igualdade, fraternidade, liberdade e amor.